Sopa Quente, Come e Cala

A arte dos novos começos

Aprendi no Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino, que o termo incipit tem a ver com a qualidade e o efeito das frases de abertura dos textos literários. Uma boa frase de abertura estabelece de imediato uma ideia, um tom, um ambiente, e oferece ao leitor uma sensação de imersão numa nova realidade por descobrir.

Poder-se-ia dizer assim: Era uma cidade de prédios esvaziados, uma exalação contínua do som dos carros que atravessavam a ponte num só sentido, e nós, eu e o meu pai, aguardando a oportunidade de regressar finalmente à nossa casa.

Talvez isto seja um incipit com efeito porque, em pouco tempo, introduzimos:

  1. Um contexto ou uma ideia: Pessoas em debandada de uma cidade, mas porquê? Será guerra, será uma epídemia, será uma ordem de expulsão de uma comunidade, será um movimento concertado ou forçado?
  2. Um efeito sensível que nos transporta para a ação: a observação longínqua da cidade, o som contínuo dos carros dá a ideia de movimento mas também de tensão (a "exalação" remete-nos para um suspirar, uma inquietude).
  3. A estranheza relativamente às personagens "eu e o meu pai", que ficam para trás, para cumprir com um objetivo privado qualquer em contra-movimento com o resto da multidão.

Mas um livro de permanentes começos, como a obra de Calvino, introduz um novo exercício literário que é fragmentário e também desenvolve o músculo da criação e da imaginação, incluindo a imaginação do leitor que preenche os espaços vazios do que não é dito, do que é interrompido, em função do seu próprio impulso enquanto jogador no tabuleiro da partida literária.

É lúdico e é experimental fazer outras coisas além de contar uma história. Se contar algo é comunicação, modular a forma de contar é algo da criação mais pura. Por isso, tentemos elevar o incipit à própria condição de romance.


Estavamos de regresso a casa, eu e o meu pai, e tinham sido deixados para trás objetos de outras formas de intimidade. Nunca eu me alimentara a aveia e mel, frutos secos e café de especialidade. Faltava-me a lata de chocolate em pó, o leite gordo e a colherzinha queimada para misturar as bebidas quentes. Havia ovos, mas não havia natas azedas. E aberta, uma embalagem de bolachas espalmadas com recheio de caramelo, que ao meu pai fez estalar os molares e que eu atirei de imediato para o lixo.

Lembrava-me da disposição da casa, mas os cheiros não era os nossos. Havia perfumes de sabão e jasmim na casa-de-banho, a sala respirava com o ar renovado da janela aberta e não se sentiam os ácaros e o pó acumulados, do meu quarto fizeram uma salinha de leitura com uma larga estante em "L" a percorrer toda a parede, um cadeirão de imitação de pele e um tabuleiro de xadrez sobre uma mesa redonda no canto da janela com duas cadeirinhas de vime e um relógio que mostrava que as pretas perderam no tempo.

Não havia rede disponível, nem mesmo a satélite que fora desativada, estávamos quase às escuras. Ligámos a aplicação da rede mesh e conseguimos estabelecer ligação a um telemóvel do prédio ao lado. Do lado lá, uma lista automática de produtos: bidão de gasolina, pilhas, rádio transístor. E o pedido: papel e caneta, velas, um jogo de azar. Iniciámos o chat com o seguinte: vem à morada x e conta-nos o que sabes. Temos xadrez e recursos.

O homem parecia ter a pele do rosto folhada em várias camadas, uma acumulação de peles moles e rosadas que lhe davam o aspeto de uma rosa de carne, delicado e abundante, pétalas sobre pétalas como as dobras dos olhos que permitiam apenas uma pequena frincha para passar a luz. Moveu o peão da rainha e tentou a defesa siciliana.

Era eu que criava arquitetura do ataque, enquanto o meu pai tentava retirar dele alguma informação: "porque ficaste para trás?".