A arte dos novos começos
Aprendi no Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino, que o termo incipit tem a ver com a qualidade e o efeito das frases de abertura dos textos literários. Uma boa frase de abertura estabelece de imediato uma ideia, um tom, um ambiente, e oferece ao leitor uma sensação de imersão numa nova realidade por descobrir.
Poder-se-ia dizer assim: Era uma cidade de prédios esvaziados, uma exalação contínua do som dos carros que atravessavam a ponte num só sentido, e nós, eu e o meu pai, aguardando a oportunidade de regressar finalmente à nossa casa.
Talvez isto seja um incipit com efeito porque, em pouco tempo, introduzimos:
- Um contexto ou uma ideia: Pessoas em debandada de uma cidade, mas porquê? Será guerra, será uma epídemia, será uma ordem de expulsão de uma comunidade, será um movimento concertado ou forçado?
- Um efeito sensível que nos transporta para a ação: a observação longínqua da cidade, o som contínuo dos carros dá a ideia de movimento mas também de tensão (a "exalação" remete-nos para um suspirar, uma inquietude).
- A estranheza relativamente às personagens "eu e o meu pai", que ficam para trás, para cumprir com um objetivo privado qualquer em contra-movimento com o resto da multidão.
Mas um livro de permanentes começos, como a obra de Calvino, introduz um novo exercício literário que é fragmentário e também desenvolve o músculo da criação e da imaginação, incluindo a imaginação do leitor que preenche os espaços vazios do que não é dito, do que é interrompido, em função do seu próprio impulso enquanto jogador no tabuleiro da partida literária.
É lúdico e é experimental fazer outras coisas além de contar uma história. Se contar algo é comunicação, modular a forma de contar é algo da criação mais pura. Por isso, tentemos elevar o incipit à própria condição de romance.
Estavamos de regresso a casa, eu e o meu pai, e tinham sido deixados para trás objetos de outras formas de intimidade. Nunca eu me alimentara a aveia e mel, frutos secos e café de especialidade. Faltava-me a lata de chocolate em pó, o leite gordo e a colherzinha queimada para misturar as bebidas quentes. Havia ovos, mas não havia natas azedas. E aberta, uma embalagem de bolachas espalmadas com recheio de caramelo, que ao meu pai fez estalar os molares e que eu atirei de imediato para o lixo.
Lembrava-me da disposição da casa, mas os cheiros não era os nossos. Havia perfumes de sabão e jasmim na casa-de-banho, a sala respirava com o ar renovado da janela aberta e não se sentiam os ácaros e o pó acumulados, do meu quarto fizeram uma salinha de leitura com uma larga estante em "L" a percorrer toda a parede, um cadeirão de imitação de pele e um tabuleiro de xadrez sobre uma mesa redonda no canto da janela com duas cadeirinhas de vime e um relógio que mostrava que as pretas perderam no tempo.
Não havia rede disponível, nem mesmo a satélite que fora desativada, estávamos quase às escuras. Ligámos a aplicação da rede mesh e conseguimos estabelecer ligação a um telemóvel do prédio ao lado. Do lado lá, uma lista automática de produtos: bidão de gasolina, pilhas, rádio transístor. E o pedido: papel e caneta, velas, um jogo de azar. Iniciámos o chat com o seguinte: vem à morada x e conta-nos o que sabes. Temos xadrez e recursos.
O homem parecia ter a pele do rosto folhada em várias camadas, uma acumulação de peles moles e rosadas que lhe davam o aspeto de uma rosa de carne, delicado e abundante, pétalas sobre pétalas como as dobras dos olhos que permitiam apenas uma pequena frincha para passar a luz. Moveu o peão da rainha e tentou a defesa siciliana.
Era eu que criava arquitetura do ataque, enquanto o meu pai tentava retirar dele alguma informação: "porque ficaste para trás?".