Sopa Quente, Come e Cala

A carreira do humorista português

Sou da geração da televisão, pouco depois veio a internet, o que quer dizer que os meus consumos culturais já eram desde cedo influenciados por agendas mediáticas e pela programação que passava nos canais (não muito diferente do que se passa hoje com programação algorítmica nas redes sociais). De algum modo, esses consumos passivos enformaram ideias sobre as referências e as sensibilidades do meu meio. Por exemplo, a única coisa que me interessava na programação da tarde, quando chegava da escola, era o caos do Curto Circuito na Sic Radical, onde uns jovens que caíram de para-quedas em frente de uma câmara de televisão em direto tinham de improvisar e de queimar tempo. Era o mais próximo de um reality show pensado e descontruído por jovens um pouco mais velhos do que eu, o que me fazia sentir perto de algo cru e genuíno.

Viria mais tarde a entender que aquela liberdade discursiva, o romper com os códigos televisivos e do bom tratamento entre pessoas, era pura recriação humorística sem filtros. Literalmente um recreio como laboratório de ensaio livre para exercícios cómicos, o efeito de fazer rir e de estarmos juntos durante um par de horas onde não se passava nada (mais tarde, o passar-se nada do Seinfeld acabou por ser um valor em si mesmo.)

Bruno Nogueira, Alvim, Manzarra, Rui Unas, brotaram como os meus humoristas. E de repente existiam por contraponto com uns velhos da geração dos meus pais, o Herman nomeadamente, que eu via como um sujeito tão imbricado no sistema mediático que perdia o selo da genuinidade e passava a ser apenas um orquestrador de momentos falsos que encenavam o cómico. Para mim o cómico não era essa programação de cenas, era a anti-televisão, o reality show caótico. Mais tarde viria a descobrir na mesma linha o Tom Green Show. E mais recentemente, embora genuíno de outro modo, o Nathan for You, que traz a subversão sob a forma de um script bem montado, mas com efeitos na vida real e que minam o status quo.

O humor é subversão, é a destruição do status quo.

Chegado a este ano, e pensando na realidade portuguesa, colocar lado-a-lado os humoristas Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira é mais que tentador. Porque são dois exemplos de estrelas reconhecidas que fizeram caminhos opostos no sentido da subversão do humor.

Ricardo Araújo Pereira como funcionário bem comportado da SIC a fazer o caminho do Herman. Hoje é um tipo do sistema que recicla o alinhamento que passa todos os dias nos noticiários, faz lavagem de imagem a protagonistas políticos no seu programa Isto é Gozar com Quem Trabalha e nas participações no Governo Sombra, e várias das suas propostas procuram o moralismo e a moderação política: parece que tudo vem impregnado de uma crítica burguesa aos extremos (é isso o objeto do humor dele), apenas para voltarmos a um estado de eterno senso comum social-democrata (o estágio latente de onde não devemos sair, e que é a nossa tecla que resolve a tensão das dissonâncias sociais).

Talvez seja difícil falar do RAP porque tudo o que ele faz é intelectual e falseado. Com o Bruno Nogueira é mais fácil, ele recupera o espírito da destruição anárquica dos nossos modos de estar. A liberdade, mesmo que agora venha em forma de argumentos escritos para a nova série Ruído, surge-nos como uma série de sketches com arquétipos dos nossos tempos: o influencer, o padre (que tem o lastro da pedofilia subjacente), o sujeito obcecado pelo bem-estar, o "wokismo" da esquerda liberal. Tudo isso entra em cena e é brutalmente esquartejado com holofotes que olham profundamente sobre essas manias. E não se procura nada a não ser o riso mais aberto, imbecil e descontrolado. A imbecilidade e o absurdo são muitas vezes superiores às próprias personagens, e são as saias de um fantasma cultural que nos envolve.