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Cache e uma história de vigilância

Em Cache, de Michael Haneke, uma família (talvez valha a pena classificá-la de classe média) recebe no correio gravações de videovigilância da própria casa. Não sabe como é filmada, por quem, nem qual o propósito. O envio repetido de novas gravações coloca a família numa tensão permanente, enquanto antecipa um qualquer evento de terror que nunca se manifesta.
O aspeto mais desconcertante é esse estado de tensão que não é resolvido, fazendo lembrar, de modo tangencial, certos transtornos de ansiedade ligados ao trabalho e a crises existenciais próximas - tarefas que geram novas tarefas, trabalho que gera retrabalho, a crise climática em escalada de novos eventos extremos, como sobreviver à vida privada, à vida comum e ao próprio planeta.
A propósito de vigilância e de tensão, mas também dos vários temas sociais que permeiam os filmes do Haneke, ocorreu-me reatar a escrita a partir de uma ideia:

  1. Uma cuidadora ao domicílio trata de um idoso praticamente acamado;
  2. Descobrem-se câmaras escondidas no quarto, talvez atrás de pladur ou de algum móvel;
  3. Face àquilo, há duas interpretações: a câmara é preventiva e serve para garantir que o idoso é bem tratado; ou a câmara é uma violação injustificada da privacidade;
  4. Em vez de colocar o trabalho em risco, a cuidadora opta pela provocação: começa a agir de forma sedutora, como se a câmara estivesse ali para ela e para mais nada.
  5. Tal como no filme do Haneke, não há uma resolução evidente. A tensão cresce na medida em que a cuidadora se torna mais e mais ousada face à câmara. O facto de o potencial familiar do idoso nunca entrar em ação para impedir aquele comportamento diz o quê daquela forma de vigilância?
    Cache, de Michael Haneke