Filme feito em blender para o Youtube com apelo de massas
O podcast Critics at Large da New Yorker inventou a etiqueta "Gen Z Horror" para falar de três realizadores nos vinte anos que se formaram no Youtube. Criaram provas de conceito dos seus filmes a partir da linguagem da internet (memes, creepypasta, 4chan, reddit) para depois assinarem longas-metragens com produtoras de Hollywood que os têm distribuído com enorme sucesso de bilheteira. Parece um modo de criação cultural distinto, e muito útil no que se refere à avaliação risco-benefício do lado das produtoras. O autodidatismo como escola, as plataformas que geram métricas de viralidade e que validam fenómenos digitais, o número de seguidores / following como indicador económico de base para um MVP. No fundo, falamos de contas de Youtube que são vistas como startups com potencial económico e que podem ser absorvidas pelo capital da indústria do cinema para amplificar o fenómeno de base.
Um dos casos é o Backrooms de Kane Parsons, que através do seu canal Kane Pixels lançou vários vídeos de um espaço liminal completamente fabricado de raíz no Blender. A parte interessante, além do tratamento de som e da conceção do ambiente das "salas de bastidores", foi o tratamento da imagem que passou pela detrioração de uma fita de VHS e que deu aos clips um aspeto realista e analógico. Em termos de bilheteira, o caso de Curry Barker com Obsession é o mais expressivo: cerca de $750.000 em custos de produção e uma receita atual na ordem dos $500 milhões. O canal dele, o That's a Bad Idea, tem uma profusão de sketches de comédia, também um filme amador de horror muito low budget, e talvez tenha sido essa capacidade de planeamento-escrita-publicação permanente-criação de following - no fundo a capacidade intensiva de trabalho e de domínio de todas as fases da produção - o que chamou a atenção. Por fim, e pessoalmente um dos casos mais interessantes, o caso Alexander Ullom com It Ends que concebeu um conceito moderno: uma viagem infinita de carro, com gasolina infinita, e não só não dá para parar (porque aparecem criaturas ameaçadoras se o fizerem) como não sabem a que destino chegarão. É a ideia do horror domesticado, que já se instalou e que está inscrito na pele nem cessar. A consciência horrível de se estar em ansiedade crescente e intensificada por causa da observação direta da própria ansiedade. Um fenómeno muito conhecido dos ataques de pânico, mas que podia ter um paralelismo estético no doom scrolling em redes sociais.
Ou seja:
- Kane Parsons com o domínio da técnica via autodidatismo, e um conceito original derivado do folclore de internet.
- Curry Barker com a capacidade de trabalho e a capacidade de captar as emoções da sua geração, com um piscar de olhos à manosfera. Ele é um exemplo maior que se podia designar como auto-exploração (seja no sentido próprio, de explorar o potencial, seja no sentido capitalista, de se esmifrar a trabalhar até produzir valor económico).
- Alexander Ullom com conceito puro.
São exemplos inspiradores que me fazem querer pensar no meu próprio exercício criador em sintonia com aqueles exemplos. Ficará para um próximo post.