Os insetos resistem à nossa fome
Por fome quero dizer qualquer forma de exploração. Pode ser a indústria alimentar, que provoca a matança silenciosa e plena de sofrimento a milhões de criaturas numa base diária. Pode ser a extração de recursos para proveito próprio, por exemplo a destruição de ecossistemas para criar minas e estações de processamento de terras raras (há um movimento contra a mina do Barroso a decorrer em Portugal). Pode ser também a colonização de corpos animais para benefício da ciência e das várias economias humanas - do rato de laboratório aos animais exóticos vendidos no mercado negro ou destinados a aquários e jardins zoológicos, ou um simples burro de carga que ajuda no transporte de mantimentos entre zonas de difícil acesso e sem veículos disponíveis.
Só os insetos e as criaturas ainda mais pequenas escapam à nossa fome. Tentamos aniquilá-los quando se constituem como praga, quando estão de tal forma presentes que parecem vir colonizar o único colonizador de direito neste planeta, o bípede humano. E no entanto, apesar dos nossos esforços, eles multiplicam-se entre as rachas do asfalto, por trás das paredes das nossas casas, em ciclos de vida acelerados e cada vez mais resilientes devido ao aquecimento global e a características evolutivas notáveis.
A barata alemã (blattella germanica) desenvolveu uma aversão à glicose, ou seja já não cai em iscas comerciais comuns, e criou resistência-cruzada a uma série de inseticidas. Em cima disto existe o efeito da colaboração entre colónias, como acontece entre a formiga argentina (linepithema humile) e a "formiga louca" (nylanderia fulva), que em vez de competirem estão coordenadas em super-colónias de milhões de indíviduos subterrâneos a conquistarem território com licenças de utilização e registos de propriedade nas Finanças.
A União Europeia regulou a comercialização de produtos alimentares à base de insetos desde 2021, como farinhas, bolachas e outro tipo de artigos processados com base na larva-da-farinha, gafanhoso-migratório e o grilo-doméstico. Mas estamos longe de impor uma dominação sobre os insetos, mesmo que os seus "casos de utilização" se vão disseminando: seria utilíssima a aplicação de nanotecnologia barata em moscas e mosquitos para que fossem os nossos drones de vigilância à distância.
Eles são de tal forma externos a nós, inúteis, não apropriáveis como produtos de comércio ou outros, que representam um choque relativamente às nossas atividades quotidianas. No máximo uma fotografia, ou um reels, da organização impecável de uma colónia de formigas e do seu esforço coordenado pelo coletivo, mas apenas com interesse metafórico que sirva para imaginar a nossa própria realidade humano.
Assim seguem numa existência desequilibrada, multiplicando-se e conquistando terreno. Uma força animal praticamente invisível que contorna a fome capitalista que engorda à custa de corpos. Não dos deles.