Professor Jiang, teorias da conspiração e Divina Comédia de Dante
O professor Jiang é uma figura do youtube que está a ganhar visibilidade pelas várias participações em programas sobre Defesa, Geopolítica, e mais recentemente pela conversa com o Theo Von. Parece estar associado a uma linha de conspiradores que funcionam com uma dose crítica de análise histórica e política, aliada a imaginação sobre o que estará além da fronteira onde a razão deixa de conseguir alcançar.
Uma das fronteiras que o prof. Jiang atravessa é quando coloca no tabuleiro os imponderáveis do nosso tempo: O ataque inexplicável dos EUA ao Irão (a narrativa oficial tinha a ver com 1) Democracia, 2) Impedir desenvolvimento de armas nucleares. Atualmente parece só interessar abrir o estreito de Hormuz e impedir o colapso por efeito dominó do bloqueio à exportação de petróleo); o processo histórico de guerras contra diversos países do médio-oriente que parece ter Israel como organizador e os EUA como executante, fosse por administrações repúblicanas ou democratas; também o chamado - e esotérico - Projeto Grande Israel; e finalmente o lubrificante de guerras que é o capital financeiro e os mercados financeiros globais. Como pensar o absurdo de guerras promovidas por uma teologia do apocalipse? Sociedades secretas e um psicótico plano global religioso, de morte e conquista, que é executado há décadas pelos poderes de extrema direita de Israel.
Estas conceções imaginativas são facilmente engavetadas como teorias da conspiração. Percebe-se, é difícil verificar e dar continuidade aos argumentos sobre as sociedades illuminati, as ligações à família Rothschild, a circulação de capitais em bolsa que alimentam a concentração de poder em determinados grupos e que financiam as guerras esotéricas planeadas por Israel. O aspeto interessante desta capacidade especulativa e de análise é que, colocada ao serviço da arte, produz discursos de apelo raro e grande capacidade de expor mecânicas da criação e de alimentar a nossa imaginação.
Falo das aulas do Prof. Jiang sobre a Divina Comédia de Dante (aqui). Em dez minutos, e três ou quatro estrofes depois, ficamos com estas noções:
- Aquele poema deve ser lido simultaneamente de forma literal e de forma metafórica. Devemos evitar significações simbólicas ou teoria crítica corrente.
- São três as figuras que falam: Dante poeta, Dante figura histórica, Dante protagonista.
- O paradoxo e as possibilidades (ambiguidade do texto, leituras abertas) como mecanismos permanentes daquela criação.
- A escrita em linguagem vernacular quando seria habitual o latim, a invocação de Apolo numa altura de ortodoxia da igreja católica, a introdução revolucionária do homem comum como protagonista quando só se conheciam santos e iconografia religiosa na arte da época.
Quando Prof. Jiang abre em absoluto o debate sobre cada estrofe com os alunos, e ao mesmo tempo que convicto pelo acesso direto às ideias do texto apela à evidência: só têm de ler o que está no texto e é imediatamente claro, fico com a impressão que a capacidade imaginativa de um "teórico da conspiração" é algo de muito precioso.
E por isso também, talvez a arte - na forma da leitura de objetos ou da própria criação - seja a aplicação mais elevada para quem tenha as faculdades imaginativas de um perigoso conspiracionista. Estilhaçar os horizontes do imponderável é algo de muito estimável, se não for no domínio da realidade, pelo menos que seja na leitura dos Clássicos.