Sobre a sentimentalidade no futebol
Hoje joga-se o Portugal - Espanha numa edição do Campeonato do Mundo onde a chamada verdade desportiva (a tecnologia VAR) tem convivido com a verdade política (Trump pediu à FIFA que se retirasse a suspensão de dois jogos a Balogun - avançado da seleção dos EUA - pelo cartão vermelho no último jogo. A FIFA acedeu.)
Introduziu-se a tecnologia de jogo mais avançada, em que a "verdade" tem por base uma revisão de dados apurada nos intervalos de lances duvidosos. Por exemplo, o sensor da bola que deteta os impactos mais ínfimos e que permite anular lances de fora-de-jogo em situações caóticas. Mas reintroduz-se a interpretação subjetiva de lances - já depois das tomadas de decisão baseadas em dados - quando o efeito de uma suspensão não agrada a um chefe-de-estado.
É como se aos dados se opusesse a filosofia. Foi o próprio Trump a dizer que não faz sentido suspender-se um jogador por partidas que ainda não aconteceram. Então e os regulamentos, perguntar-se-ia um outro participante neste debate. Os regulamentos permanecem em vigor, só que encontrou-se uma exceção criativa para rever a revisão do lance.
No fundo, além da "verdade" do jogo, tem vingado a criatividade do jogo.
Mas queria falar sobre a sentimentalidade. Creio ser quase unânime que a paixão pelo clube é mais predominante do que a paixão pela seleção. Em certo sentido, ainda bem. Os clubes promovem projetos desportivos de longo prazo, os fãs acompanham a evolução dessas ideias de jogo ao longo da época, criam laços com os jogadores que são independentes das nacionalidades, e estabelecem também relações de identificação com outros fãs que apreciam fazer esse acompanhamento. As seleções não, é puro nacionalismo e vontade de afirmação simbólica frente a todas as geografias. Nesse sentido, a estranheza que subjaz ao apoio à seleção é clara:
- Detestamos o Cristiano Ronaldo por exercer um poder excessivo nas decisões técnicas, incluindo na decisão da sua própria titularidade;
- Adoramos Portugal nas goleadas, como se isso fosse um sinal de superioridade e de valoração patriótica quando no dia anterior estávamos destinados ao fracasso;
- Entra-nos uma depressão pelas orelhas que se instala num canto bem escuro do nosso cérebro com a derrota e a eliminação antecipada da seleção, um efeito do género "post-nut clarity": o entusiamos foi em vão, o bom futebol não está nestas semanas efémeras de jogos da seleção que logo se dissipam sem que tenha havido ideias de jogo, entrosamento, identidade, nexo na montagem daquela equipa.
Numa outra nota, hoje tomei conhecimento do conceito de "sports farming", em que é feito streaming de desportos inventados (tipo corrida de caracóis, ou futebol de dois sentado) para aliciar novos clientes às casas de apostas. A ideia era que se inventassem também países para participar nestes Mundiais da FIFA, para quem as regras parecem ser extremamente flexíveis.