Trabalhos de merda ao nível dos insetos
Estou a ler o Trabalhos de Merda do David Graeber, que é um escape espiritual para quem se senta no escritório sem nada que fazer e percebe que, não é só ele o inútil, mas é todo um sistema económico que promove postos de trabalho improdutivos, simulações de funções para dar resposta ao modelo obsoleto das 40 horas semanais (porque não 15 ou 20?) e aos incentivos para o pleno emprego na população.
Voltemos aos insetos e à sua falta de ócio, que é um critério humano e político (o direito a não fazer nada em tempo inteiramente privado).
Era uma sensação rasteira, pisar a substância mole da terra que energizava as nossas pernas e ligava sinapticamente o movimento dos nossos corpos. Sentia-me aqui, na retaguarda da fileira, mas também adiante, entre os que organizavam os trabalhos do pelotão passando matéria orgânica com que construiríamos a colónia.
Um corpo mecânico imenso, e ao mesmo tempo tão curto quanto a minha noção de mim, ampliava a nossa consciência para além das vontades individuais, semelhante a uma máquina multiforme com impulsos próprios. Se isso dava sentido aos meus movimentos dentro da colónia, sobrevinha ao mesmo tempo um desejo de novidade, a introdução de uma anomalia.
O que se seguiu foi uma série catastrófica, mas espetacular, de acontecimentos.
Primeiro virei-me e interrompi o fluxo próximo de corpos. Como se gerasse um efeito magnético, começou a circular em meu redor, nas duas direções, as correntes líquidas de companheiros. Com a minha mandíbula, esmaguei a cabeça de um deles sem consequências, senti-lhe a quinina a quebrar-se na minha boca e a formar-se numa pasta de estilhaços que cuspi de seguida para o chão. Ninguém se apercebeu. Embati contra outros corpos, passei-lhes por cima, elevei-me sobre um monte e olhei em volta. Um mar de gente transportando materiais, entreajudando-se, ou seguindo na fileira predefinida em direção a novas funções. Era um coletivo, comovente na forma como estava unido, feroz no seu movimento progressista e indiferente a tudo o resto. Por detrás, a massa salgada de verde-mar cintilando por toda a parte.
Do meu lado, senti que se quebrava o ciclo de energia social que dava mais vigor aos meus passos. Que perdia esse exoesqueleto monstruoso da comunidade, diabolizando-me em malícia mas também em vulnerabilidade. Um diabo nunca é rico, só pode ser pobre, porque rejeita a plenitude de recursos e de boa-aventurança para se dedicar ao questionamento e à putrefação dos sistemas de pensamento e das organizações estabelecidas.
Nesse sentido podia-me ter dissolvido na terra em glicose e matéria prima que alimentaria a eterna rede dos micélios comunicantes. Mas o mar vibrante chamava por mim, a nova forma líquida que havia de dar um sentido diferente ao movimento incenssante que, ainda assim, me compelia em frente.
Debaixo de uma cartilagem forrada a plumas encontrei abrigo, e restou-me no momento certo entregar-me às partículas de ar que emanavam diretamente daquela vibração salgada que ligava continentes à terra mole que eu conhecia. Embati, corpo-a-corpo, com os átomos de cintilação do Atlântico e aí, como por efeito de uma descarga elétrica, fui transportado para as memórias esbatidas mas acolhedoras de um outro tipo de vida que eram tanto mais estranhas quanto com mais esperança as imaginava terem-me um dia pertencido, e agora recordava-as, tão remotas eram, pela primeira vez.